O Que é o Número Básico de Reprodução de uma Epidemia?

Logo que uma nova doença infecciosa surge, o que assusta as pessoas é sua taxa letalidade, ou seja, o percentual de pessoas contagiadas que acaba morrendo. Para uma epidemia em curso, a letalidade é muito difícil de ser estimada, e no caso do novo coronavirus não é diferente, pois devido às subnotificações e outras dificuldades, não sabemos com certeza quantas pessoas já foram infectadas ou mesmo quantas estão infectadas num determinado momento.

Entretanto, para que as ações de enfrentamento da epidemia sejam mais assertivas, além da letalidade, é preciso estudar sua propagação. Nesse contexto, existe uma informação que é de especial interesse: o número básico de reprodução, também conhecido como R_0. Este indicador é muito importante, pois expressa o potencial de propagação do vírus. Em linguagem comum, significa quantas pessoas, em média, alguém que carrega o vírus irá infectar. Por exemplo, um R_0 = 2 significa que um infectado, em média, passará o vírus para mais duas outras pessoas.

Perceba que esse número não é uma taxa, e não traz informação sobre velocidade ou tempo. Duas doenças podem possuir o mesmo número básico de reprodução, mas dinâmicas de contágio bem diferentes: uma delas pode ser menos contagiosa, mas ter um longo tempo de evolução de seu quadro clínico (deixando a pessoa doente por mais tempo), enquanto a outra pode ser mais contagiosa, mas evoluir mais rapidamente. Ambas essas doenças, mesmo tão diferentes, podem ter o mesmo número básico de reprodução, que é exatamente o resultado da multiplicação da taxa de contágio pelo tempo de infecciosidade (duração média que um infectado pode contagiar outros). Ebola, por exemplo, é uma doença que apesar de ser muito mais letal que COVID-19, possui um número básico de reprodução menor.

O número zero subscrito em R_0 se refere ao início do surto. Esse é o número que epidemiologistas do mundo inteiro tentam rotineiramente estimar para decidir se um surto está contido (endêmico) ou se ele pode se espalhar (epidêmico). Entretanto, durante o curso de uma epidemia, ações de mitigação, como uso de máscara e distanciamento social, podem reduzir a taxa de contágio, alterando o número básico de reprodução ao longo do tempo. Além disso, o número de pessoas suscetíveis ao vírus pode mudar, seja pelo avanço natural da epidemia, seja pela eventual aplicação de vacinas, em ambos casos reduzindo as oportunidades de contágio ao longo do tempo. Esse número básico de reprodução avaliado em diferentes janelas de tempo, para regiões específicas, é conhecido como R_t — aqui o t representa o tempo, e assim R_0 é o R_t para t=0, ou seja, no início da epidemia.

Todas pessoas que adoecem, permanecem doentes apenas por um tempo limitado e depois se recuperam, ou em alguns casos infelizmente morrem. Por isso, quando R_t=1, se diz que há uma estabilização no número de infectados: significa que cada infectado irá, em média, infectar apenas uma outra pessoa que podemos dizer que “tomará seu lugar”, mantendo uma estabilização no número de pessoas doentes ao mesmo tempo. Por isso o valor R_t=1 acaba se tornando um ponto de corte. Quando R_t é maior que 1, a doença é dita epidêmica, e isso significa que cada pessoa infectada transmitirá o vírus para mais de uma pessoa, gerando um efeito de crescimento geométrico (uma potência com R_t no expoente). Por outro lado, quando R_t é menor que 1, se diz que o surto é endêmico, ou seja, está contido e o número de pessoas contaminadas se reduzirá. Por isso, durante o enfrentamento da pandemia de COVID-19, um dos focos tem sido buscar formas de reduzir o R_t para valores abaixo de 1.

Quais são os fatores que podemos estudar e tentar manipular para reduzir R_t? Podemos listar três principais fatores: (1) a taxa de contágio, (2) a duração da infecciosidade, e (3) o número de suscetíveis. A duração da infecciosidade é o tempo durante o qual alguém contaminado será capaz de transmitir a doença para outras pessoas. Quanto maior esse tempo, maior tende a ser o R_t. Esse critério é diretamente relacionado à biologia da ação do vírus no corpo humano. É um fator que é difícil de ser alterado em curto espaço de tempo, pois depende de medicamentos e tratamentos que exigem estudos clínicos demorados.

Já a taxa de contágio é um fator mais próximo ao nosso alcance. Essa pode ser separada em dois critérios: oportunidade e probabilidade de transmissão. A oportunidade trata do contato do infectado com outras pessoas saudáveis. Essa é a variável alvo do distanciamento social: evitar ao máximo os contatos entre as pessoas. Havendo contatos, a probabilidade de transmissão indica a chance de uma infecção ocorrer durante esses contatos. Essa variável é controlada pelos protocolos de segurança e pelas etiquetas respiratórias, como, por exemplo, o uso de máscaras e os hábitos de higiene.

Por fim, o número de suscetíveis indica a quantidade de pessoas que ainda não possuem anticorpos contra a doença. A vacina, por exemplo, tem a função de diminuir a suscetibilidade, pois com a vacinação, ainda que alguns infectados não respeitem regras de distanciamento ou etiquetas respiratórias, a probabilidade desses encontrarem alguém sem anticorpos diminuirá. Diz-se que a população atingiu a chamada “imunidade de rebanho” quando o número de suscetíveis é tão pequeno que a doença não consegue mais se espalhar, causando o R_t menor que 1. Infelizmente para isso acontecer naturalmente, o número de infectados precisaria representar um percentual muito alto da população total. Isso significa que, mesmo com uma letalidade perto ou até inferior a 1%, o número de mortes seria inaceitável. Por isso a melhor alternativa é a vacinação. Infelizmente o desenvolvimento de uma vacina leva tempo.

Até lá, ideal para o controle efetivo da pandemia de COVID-19 é conseguir reduzir o R_t para valores abaixo de 1 através das medidas que estão ao nosso alcance, evitando contatos e aderindo aos protocolos de mitigação recomendados. E enquanto não houver imunidade de rebanho, sempre que houver flexibilização das medidas preventivas sem os devidos cuidados, é possível que o R_t volte a crescer, ampliando novamente o número de contaminados.

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